13.8.12

O processo de alfabetização muda o cérebro

ENTREVISTA

Stanislas Dehaene: O processo de alfabetização muda o cérebro

Especialista francês faz seminário no Rio que será transmitido para o Recife

 site  http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/mundo/brasil/noticia/2012/06/30/stanislas-dehaene-o-processo-de-alfabe

Publicado em 30/06/2012, às 14h00

 

Stanislas Dehaene critica método de alfabetização brasileiro

Divulgação

Stanislas Dehaene critica método de alfabetização brasileiro / Divulgação

O Rio recebe, na sexta-feira, o matemático e neurólogo Stanislas Dehaene, diretor da Unidade de Neuroimagem Cognitiva do Collège de France e uma das maiores autoridades mundiais no estudo do cérebro. Dehaene ministrará o seminário Os Neurônios da Leitura, promovido pelo Instituto Alfa e Beto. Dehaene concedeu entrevista por e-mail ao JC. Em seus estudos, ele refuta o método de alfabetização usado no Brasil. O evento será retransmitido ao vivo em videoconferência para oito capitais, entre elas o Recife. Na capital pernambucana, o encontro, aberto, ocorrerá no auditório do antigo prédio da FIR, na Madalena. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail micheline@alfaebeto.org.br.
JORNAL DO COMMERCIO – Suas pesquisas permitem concluir que algumas estratégias e métodos de alfabetização são mais eficientes do que outros? O que o senhor pode dizer sobre o construtivismo, principal inspiração das políticas de alfabetização adotadas no Brasil?
STANISLAS DEHAENE – As pesquisas realizadas nos últimos 30 anos pela minha equipe, com a ajuda de técnicas usadas pela neurociência, refutam o princípio construtivista, segundo o qual a criança testa hipóteses para acabar descobrindo, por si mesma, os mecanismos da leitura. Ao contrário, as evidências indicam que a alfabetização é muito mais rápida quando se ensina explicitamente quatro pontos básicos. Primeiro, o fato de que as letras representam diferentes sons. É preciso ajudar a criança a identificar os diferentes sons que compõem uma palavra para depois fazê-la compreender que as letras representam esses sons. O segundo elemento é sobre a combinação das letras ou dos grafemas. A criança precisa aprender a forma de juntar letras para produzir o som. O terceiro aspecto é a direção da leitura, que deve ser da esquerda para a direita: lemos li, e não il. Por último, a criança deve ser instruída para perceber que uma mesma forma gráfica pode representar letras e sons diferentes dependendo da posição. 
JC – Aprender a ler e escrever requer o desenvolvimento de habilidades cognitivas diferentes daquelas necessárias para se compreender um texto?
DEHAENE – Minhas pesquisas tratam apenas da aquisição da leitura, do processo de aprendizagem do código alfabético. A compreensão do que se lê requer a mobilização de competências cognitivas muito mais complexas do que as envolvidas no processo da alfabetização. Para compreender não é necessário saber ler. Os adultos analfabetos que estudam no Brasil entendem muita coisa, apenas não aprenderam a ler. A alfabetização é uma condição necessária, mas não suficiente para a compreensão.
JC – Há alguma idade melhor que outras para se alfabetizar? Existe uma maneira objetiva de se avaliar o nível de alfabetização de uma criança?
DEHAENE – Uma criança deve começar a se alfabetizar aos 6 anos e esse processo estará concluído em um ano. Em alguns idiomas, porém, o processo pode demorar mais porque o tempo necessário para se alfabetizar uma criança está muito relacionado à transparência do código alfabético da língua que ela fala, ou seja, se a correspondência entre som e letra é maior ou menor. Quanto mais direta a relação, mais rápida a alfabetização. No Brasil apresentarei um quadro que compara os resultados da capacidade de leitura de alunos de diferentes países. O teste utiliza palavras e pseudopalavras, que são palavras que poderiam existir, mas não são usadas. No Brasil, por exemplo, a palavra vuvuzela só foi conhecida na Copa do Mundo da África do Sul, mas logo todas as pessoas alfabetizadas foram capazes de escrevê-la corretamente, pois conhecem o código alfabético. E muitos o fizeram sem conhecer o sentido da palavra


. - Diretor da Unidade de Neuroimagem Cognitiva INSERM-CEA 
- Professor no Collège de France , cadeira de Psicologia Cognitiva Experimental Verifique aqui pa

ra o programa de seus cursos e seminários. Curriculum vitae em Inglês Curriculum vitae en Français: lista de publicações científicas , muitos dos quais estão disponíveis como arquivos PDF, está disponível aqui. Stanislas Dehaene também publicou vários livros:








  • Dehaene , S. (Ed.) a cognição numérica. Oxford, Blackwell.
  • Dehaene , S. (Ed.) Le cerveau ação en:. l'Imagerie cérébrale en psychologie cognitive Paris: Presses Universitaires de France, 1997.
  • Dehaene , S. La Bosse des Maths. Paris: Odile Jacob, 1997.
  • Dehaene , S. O sentido de número. New York: Oxford University Press, 1997; Cambridge (UK): Penguin Press, 1997.
  • Dehaene , S. (Ed.) A neurociência cognitiva da consciência . MIT Press, 2001.
  • Dehaene , S. DUHAMEL, JR, HAUSER, M. e Rizzolatti, G. (Ed.) do cérebro do macaco ao cérebro humano (Fyssen Foundation Symposium) . MIT Press, 2005.
  • Dehaene , S. Leitura no cérebro . Viking Penguin, setembro de 2009.

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